terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Admirável mundo virtual

Jantamos num bistrô do Recife. Na mesa à direita, um casal se distrai com os Smartphones. A moça vez por outra mostra imagens ao acompanhante. Apressado, o rapaz tira os olhos do seu aparelho, vê o que a esposa lhe aponta – reparei nas alianças fornidas na mão esquerda –, faz comentários monossilábicos e retorna às próprias investigações. A moça, que me parece grávida ou um pouco roliça, ri bastante, tentando chamar atenção do marido. Não tenho dúvida, os dois são casados, a aliança no dedo esquerdo parece uma argola. O garçom traz a carta de vinhos e ele pede cerveja; ela prefere coca zero. Servem a entrada, uma linguine de pupunha, com laranja, agrião, queijo de cabra holandês e bottarga. O casal belisca a iguaria sem desligar-se das telas, os dedos movendo-se nos teclados com a agilidade de um caixa bancário contando cédulas. O garçom traz a segunda cerveja, ele bebe, ela descansa as pernas sobre o sofá, está mesmo grávida, o obstetra recomendou manter as pernas elevadas para evitar edema e varizes. Contempla o futuro pai sentado à frente, esboça mostrar algo, porém recua a meio caminho, o Smathfphone quase tocando a linguine fria. Durante longo tempo os dois ficam mudos, como se uma parede de blindex os separasse. O garçom traz os pratos, os esposos interrompem a comunicação em rede e admiram o jantar conceitual do chefe francês, fotografam, postam no Facebook e mastigam em silêncio.

Na mesa à esquerda, três mulheres sentam num sofá. Uma delas, sozinha, se exercita freneticamente no seu Smartphone computador/câmera fotográfica/GPS/conselheiro sentimental/astrólogo... As outras olham fotos num tablet. Por mais que alongue o pescoço não consigo ver as imagens. Consolo-me dizendo que não se trata de algo imperdível, pois as duas bocejam entediadas. Dois homens sentados em cadeiras, de frente para as três mulheres, falam animadamente de negócios, enquanto tomam vinho. Ao lado deles, alheia a todo ambiente, uma jovem silenciosa contempla as flores de um jarro pequeno.

Voo do Recife a Londrina. Aguardo embarque durante quatro horas no aeroporto de Guarulhos. Passeio aborrecido entre pessoas que também esperam aviões, ocupadas com aparelhos celulares de tecnologia infinita. Um rapaz senta junto de mim, retira uma banana da mochila e come-a com sofreguidão. Gesto insólito, perfeito para um diálogo. Mas ele saca um headphone da bolsa, liga-o no celular, acompanha com os pés a música que eu não escuto, balbucia palavras em inglês. Ninguém olha para ninguém, ninguém escuta ninguém, ninguém fala com ninguém, ninguém lê livros – o que seria pretexto para um início de conversa –, todos com seus fones, os ouvidos tapados para o mundo, os olhos recusando-se a ver o que não seja uma tela.

Onde se escondem os leitores brasileiros? É o tema de minha conferência em Londrina e Curitiba. Nesse aeroporto eu não enxergo nenhum deles. Mas preciso ter essa resposta na ponta da língua, uma conversa afiada que justifique o cansaço da viagem, os trocados que me pagam. Onde estão os leitores invisíveis?

Felizmente a aeronave. Logo mais o hotel, o quarto, a cama, depois de um voo de 45 minutos. Sentados atrás de mim, um jovem casal e a filhinha de meses. A menina gargalha precocemente, os pais cochilam. 45 minutos passam ligeiros. O comissário de bordo anuncia que o avião iniciou descida, pede que elevem os recostos das poltronas, recolham as mesinhas, desliguem os aparelhos eletrônicos. A menina grita alucinada. Também sinto dores nos ouvidos, sou como as crianças que não desenvolveram completamente o sistema auditivo. Felizmente pousamos, os avisos de atar cinto continuam acesos, os passageiros se apressam em ligar os Smartphones, antes de abrirem as portas do avião. A meninazinha volta a rir alto.

Quando me levanto, cumprimento o casal. Digo que sou médico, explico que os bebês choram nos pousos das aeronaves porque sentem dores nos ouvidos. O casal troca olhares. O pai explica que a filha costuma viajar e não sente nada. Ela gritava porque tiveram de desligar o filminho que assistia no tablet, por conta da aterrissagem. Percebo que a engenhoca fora religada. A criança ri, agita-se, bate na tela com as mãozinhas. Uma princesa feliz para sempre no seu castelo virtual. Um novo conto de fadas.

Fonte: Jornal O Povo

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